Publicado em pleno fim do milênio passado (1999), Continuum:
Roleplaying in the Yet é, coincidentemente, o epítome do RPG noventista:
modelo de narração interativa clássico (um Mestre de Jogo cria a história,
narra sozinho, arbitra as regras c autoridade plena e interpreta todos os
NPCs), livro completo, fruto de um trabalho autoral e editorial extenso e
profissional, tem capa mole e seu interior é p&b c bastante texto e poucas
(e estranhíssimas!) ilustrações, seu conceito central, bem como todos os
outros, é de uma criatividade e elaboração impressionantes, seu foco está no
cenário, nos personagens e nas histórias e ele conta c sistema próprio
canhestro (mais sobre isso adiante) e moderadamente crunchy, ou complicado (na
década de 90 a maioria dos RPGs “narrativistas” ainda possuía sistemas no
mínimo medianamente pesados).
Sendo, portanto, um produto de seu tempo, assim como é virtualmente impossível escapar de convenções estabelecidas por grandes predecessores (como conjuntos de Atributos, a grande maioria no esquema DnD: Força, Constituição, Destreza, Inteligência, Sabedoria e Carisma), Continuum n escapou às principais convenções noventistas, em grande parte estabelecidas pelo WoD (World of Darkness, ou Mundo das Trevas): temas “adultos”/maduros; metaplot(s); ambientação geralmente urbana desenvolvida ao redor de um único tipo de personagem jogável (vampiros, magos, nefilins) que se divide em facções (clãs de vampiros, tribos de lobisomens) e por aí vai.
Na vdd o título do jogo é grafado Continuum, c
essa frescura do sobrescrito; se eu lembrar ou descobrir o porquê enquanto
escrevo esta resenha eu volto a esse assunto, mas me recuso a perpetrar a
prática.
Continuum foi recebido mto bem pela crítica especializada, mas n foi um grande sucesso de público por motivos q ficarão claros. Um deles é o fato de o cenário do jogo ser complicadíssimo, como tende a acontecer c o assunto viagem no tempo, ainda mais quando amplificado por uma característica noventista q faltou citar: a ambição. Os autores daquela década sem dúvida se levavam mto a sério, o q está ligado ao interesse às vezes excessivo por “temas adultos”. Isso gerou uma grande quantidade de jogos risíveis e obtusos, como os medonhos epígonos de WoD, Everlasting e Legacy: War of Ages, mas tb obras-primas da imaginação, como as edições clássicas dos jogos do Mundo das Trevas e joias obscuras como Nephilim, da prestigiada editora Chaosium (Runequest, CoC, Pendragon, Elric! – q tem mesmo esse ponto de exclamação q eu me recusaria a repetir se esta fosse uma resenha desse ótimo jogo de fantasia sombria!), Witchcraft, o surreal Immortal: the Invisible War, uma joia lindíssima e multifacetada talvez excessivamente inspirada em Vampiro, o nacional Era do Caos (q estruturalmente lembra Nighlife, q por sua vez mto provavelmente inspirou Vampiro, filiação da qual falarei mais em uma parte futura desta resenha), o imaginativo Deliria (os participantes jogam c everyday heroes, ou "heróis da vida real", em tradução livre, no melhor cenário de fantasia urbana puxado p a mitologia feérica) e o RPG de horror sobrenatural c o melhor casamento entre regras e cenário daquela época, cuja mitologia original foi comparada por Lester Smith ao possante Mythos cthulhiano, o RPG The Whispering Vault. (Pretendo fazer outras resenhas depois desta, no mínimo dos jogos pouco conhecidos q mais influenciaram o Hostis; The Whispering Vault é um deles.)
Como se Continuum n fosse suficientemente complicado em toda
a sua autoimportância, eu n vou resenhar apenas esse RPG, mas tb quero no
mínimo mencionar seu único e excelente suplemento – Further Information: A
Gamemaster’s Treasuty of Time – e comentar, aqui e ali, o RPG Narcissist, um livro base
independente q n chegou a ser completado, mas teve a sua versão de
pré-lançamento 0.7, c apenas 53 página, lançada; ela permite q se jogue c os
vilões de Continuum, apresentando c a mesma competência imaginativa de
Continuum o ponto de vista desses viajantes do tempo (e das dimensões)
desregrados e, como seu nome sugere, egoístas, além do sistema de regras de
Continuum modificado p se criar e jogar c narcissists.
NA PARTE 2: Introdução – Se você pudesse viajar no tempo à
vontade... que tipo de civilização você encontraria?
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